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do tamanho da respiração
Galeria ArteFASAM- BH

Exposição individual

11 de junho a  30 de julho de 2022

texto Bruna Costa

Galeria ArteFASAM, Belo Horizonte

“Voz e vento apenas Das coisas do lá fora”

(Hilda Hilst)

 

A pintura de Gabriela Sacchetto é temporal. Embora cativem em princípio pela pequenez, convocam a uma temporalidade particular. De frente a elas, faz sentido pensar que as pinturas de bolso de Gabriela são do tamanho da respiração, uma medida diferente das dimensões como altura e largura (e, neste caso, profundidade). Diz respeito a um tempo que, com alguma sorte, conseguimos alargar em um curto espaço. Não à toa, é preciso estar disposto a suspender o tempo ao redor, aproximar-se e focar o olhar: há muitos detalhes para captar, que a mirada rápida pode deixar escapar. Esta pausa propicia uma dimensão quase meditativa, cuja principal ferramenta é a respiração. Respirar media o tempo interior, agencia momentos de intervalo raros nos tempos recentes.

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Não é simples condensar tanto em tão pouco; a negociação com o suporte demanda escolhas assertivas. Não é só o tempo da fruição, mas também do processo, desde o olhar até a questão da fatura, inerente à cozinha pictórica. Suporte caro à história da arte, a pintura nunca cessa de produzir tensionamentos, mesmo no contemporâneo. No trabalho de Gabriela, a pintura se materializa no fragmento: pedaços de madeira que foram ou seriam utilizadas na construção civil, rejeitos de obras, tacos, rodapés e tanto mais de uma memória do material que não acessamos, mas, de algum modo, nos formatos ou nas ranhuras, demarca sua presença. 

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Estes pequenos blocos de madeira dialogam com os conteúdos das imagens – geometrias sensíveis que informam o dia a dia e o singular que ele abriga. Um galpão, uma caixa d’água, uma biruta, um poste e sua sombra ou um varal viram problemas de forma e cor a serem resolvidos num restrito espaço. O resultado desta de investigação – encaixado e luminoso – dialoga com uma modernidade presente em Giorgio Morandi e Amadeo Lorenzatto, que, aos seus modos, foram capazes de transpor objetos e vistas cotidianas para articulação de espaços pictóricos singulares, consolidando uma pausa próxima das que Gabriela Sacchetto constrói. A mesma trivialidade é observada em seus vídeos, não-narrativos, como extensão dos seus interesses pitorescos: recortes de paisagem com seus movimentos econômicos, sutis. Pinturas-tempo que mostram concretamente as imagens observadas pela artista: cenários ordinários, mas vivos.

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O desenho de observação da paisagem é praticado nos momentos considerados vagos. Este vazio não é apenas um “entre” coisas, mas torna-se assunto principal no trabalho. O gênero da paisagem se despe das relações históricas e representativas para instaurar afeto: a relação com a cidade paulistana. No trabalho da artista, a metrópole que muitos brasileiros conhecem se transforma no universo dos “espaços vazios, espaços de pausa, de respiro”, do respiro que altera o tempo no corpo. É a São Paulo lírica, carregada de memórias de vida e afeto.

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Respirar evoca também o ar, esta etérea e invisível atmosfera que nos circunda. Relembra que o vazio não é o nada, mas é sempre cheio, como sentimos concretamente nos pulmões. O invisível se faz presente também no vento, provocado pelo sopro ou pelo movimento. O vento anima as coisas estáticas, visto que não há presença humana. Ar em velocidade, o vento traz ritmo aos ventiladores de ar e função às birutas, quase arquetípicas. E é tão efêmero quanto perene, pois sempre retorna para mexer e dar vida à paisagem.

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Bruna Costa

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